DESAFIO CINETOSCÓPIO DO RAFA #5

Olá! Hoje vamos dar continuidade ao desafio cinestocópio dos 30 filmes que estou fazendo aqui. No post anterior , eu havia falado sobre um dos sete samurais do cinema, Nosso Senhor Buñuel. Hoje é dia de falar sobre mais um samurai. O tema de hoje é:

#5 – UM FILME FRANCÊS

Antes de qualquer coisa, quero deixar aqui a minha indignação. Existir o desafio #Um filme francês e não existir o desafio #Um filme italiano é ridículo. O cinema italiano é muito mais importante que o cinema francês. Mas tudo bem, vamos nessa.

Glauber Rocha chamava-o de “revolução permanente”. Ele fazia filmes de costas para as “regras cinematográficas”, subvertendo gêneros e estilos. Filmava ideias no lugar de histórias. Filmava sem roteiro, apenas com pequenas anotações, que eram passadas aos atores momentos antes das filmagens. Nunca se sabia o que ele estava pensando. Sua montagem era fragmentada, as imagens parecem ter passado por um liquidificador. Música, literatura, teatro, artes plásticas: tudo isso era incorporado por ele no seu cinema, que era caracterizado pela inventividade, provocação, improvisação, pelo teor artístico e crítico e pela quebra dos padrões estabelecidos. Cínico, anarquista, irreverente, trágico, romântico, irresponsável, clássico, inquieto e desconcertante. Chamado de fascista por uns e de comunista por outros. Do tipo “ame-o ou deixe-o”. Hoje, escolhi um filme de Jean-Luc Godard. O filme escolhido foi um filme de 2001, chamado “Elogio do amor”.

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Edgard é um cineasta em busca de uma atriz para protagonizar seu filme, uma mescla de literatura, ópera e cinema. Ele enxerga em uma faxineira argelina a pessoa ideal, mas a mulher se recusa a realizar o papel. Dois anos antes, o mesmo Edgar investiga a vida de um membro da resistência francesa que, por dinheiro, vende os direitos de sua história pessoal a Hollywood, para uma produção que terá Steven Spielberg como diretor.

Esse é o fio condutor do filme. São duas histórias. Passado e presente. O presente é filmado em 35 mm e em preto e branco. O passado em cores estouradas, filmadas com uma câmera digital.

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O filme, no entanto, é uma colcha de retalhos costurada brilhantemente por Godard. Com citações de autores como Max Ophuls, Shakespeare e Santo Agostinho, Godard inventa, diverte, faz cinema-arte-filosofia-poesia e critica. Critica muito. Os alvos? Spielberg, os Estados Unidos, a indústria cultural, a falta de originalidade em Hollywood.

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Quando antigos membros da resistência francesa pretendem vender sua história para os americanos, alguém adverte: “A Sra. Schindler nunca recebeu um tostão. Está vivendo na miséria na Argentina.” Os produtores explicam que o roteiro será escrito por um famoso escritor americano. Godard, então, usa sua sempre perspicaz ironia nesse diálogo memorável entre uma francesa e o produtor americano:

“A qual americano se refere? América do Sul?”

“Aos Estados Unidos, suponho eu.”

“De fato, mas os estados brasileiros também estão unidos. No Brasil se chamam brasileiros.”

“Não, eu disse Estados Unidos da América do Norte.”

“Os estados unidos mexicanos estão na América do Norte, e são ‘mexicanos’. No Canadá se chamam canadenses. A qual Estados Unidos
você se refere?”

“Só disse: Os Estados Unidos do Norte.”

“Então, um não habitante dos seus Estados Unidos, como vocês chamam? Vê? Não tem um nome. Este homem é de um país cujos não-habitantes não têm nome. Não é de se estranhar que precisam das histórias de outros povos, lendas de outra gente.
És como nós. Está buscando a origem: pais, irmãos, primos… não tem nada de original. Mas nós buscamos dentro de nós mesmos. Pobres! Sem história, têm que buscar em qualquer parte, no Vietnam, em Sarajevo…”

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Godard tem hoje 85 anos e é uma lenda viva.

Escrito por:
Rafael Forcassin

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